Coração


"Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de espírito." (Salmos 34:18)

O coração bate em torno de 100 mil vezes por dia e 36 milhões de vezes por ano. 

Coração, no sentido figurado, representa, entre outras coisas, sentimento, consciência, memória, afeição, íntimo, alma e amor. 

Coração de Pastor 

O coração faz o pastor. Homens de grandes corações são grandes pastores. Homens de maus corações podem até fazer algum bem, mas isso é raro. O mercenário e o estranho podem ajudar o rebanho em algumas ocasiões, mas é o pastor com coração de pastor quem abençoará as ovelhas e corresponderá em toda medida à posição de pastor. 

Nós damos tanto ênfase à preparação do ministro, que temos perdido a visão da coisa mais importante a ser preparada - o coração. Um coração preparado é muito melhor do que um obreiro preparado. Um coração preparado fará um pastor preparado.  

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Ser pastor significa alegria e também sofrimento. Muitas vezes esses sentimentos estão apenas alguns minutos distantes um do outro. Lembro-me, com emoção, do dia que após oficializar o enlace matrimonial de um amável casal, realizei o funeral de um precioso colega e amigo. 

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Coração Humano

Há uma classe exigente na congregação. Para ela, o pastor deve ser tanto um mestre por excelência, como um visitador assíduo dos membros. Além disso, deve dispor de tempo para almoçar com os irmãos e participar dos seus aniversários. Ele deve ser um evangelista de mão cheia, sem olvidar a limpeza e a conservação dos templos. Espera-se ainda que ele seja um líder na comunidade, envolvido nas questões que interessam a todos e não apenas aos da igreja e que... Um momento! Ninguém é super-homem!

Além de tantos requisitos e cobranças, existe o ministério específico, peculiar, para o qual o pastor é chamado por Deus e preparado por meio dos dons, da personalidade e até da sua história pessoal. Ou seja, o pastor encontra-se na alça de mira de expectativas, muitas vezes conflitantes: as dele (quando aceitou o Chamado divino para o ministério), as da igreja e as da comunidade a que serve. Como conciliar todas essas questões? Essa é a luta constante que todo pastor enfrenta. Alguns chegam ao extremo: cedem a todas essas expectativas que se acumulam - receita precisa para o desastre e para o naufrágio em todos os âmbitos da vida pessoal. Outros, afirmam sua individualidade e a do seu Chamado, agindo como se dissessem: "Eu sou desse jeito, ninguém me muda. Terão que me aceitar como eu sou e ponto final!" - receita infalível para a irrelevância e para o isolamento. 

Coração Missionário 

Um exemplo de um grande coração de pastor foi o missionário José Ferreira Ribeiro, cognominado de "Búfalo do Marajó".  Pioneiro na evangelização do arquipélago marajoara, ele prestou 30 anos (1940 - 1970) de pregação e intercessão àquele povo. Estabeleceu igrejas em sete cidades dos 13 municípios daquela região, e cumpriu cabalmente seu ministério, dedicando-se integralmente à missão. 

Como um homem pode sacrificar tanto sua vida e dar tanto de si para o pastorado mesmo sem ver o resultado imediato de seu labor? Qual a força que impulsionou o pastor José Ferreira a ficar ano após ano enfrentando toda sorte de vicissitudes nos campos, nas matas e nos rios amazônicos? O que o levou a continuar seu trabalho, mesmo sem o apoio da Convenção de Ministros e diante de fortes oposições? Pois somente depois de 50 anos poder contemplar o verdadeiro resultado? A diferença era apenas uma coisa: ele tinha um grande coração, um coração quebrantado, cheio de amor, paciência e preocupação com as pessoas. Um coração desprovido de qualquer ambição pessoal. Como diz Elienai Ribeiro: "Pastorear não é algo que os ministros pensam; pastorear faz parte da natureza deles". 

Coração Consagrado 

A diversidade de pessoas e a circunstância inerente ao pastorado, fazem com que seja um desafio constante manter um coração consagrado; como disse Philips Brooks (bispo episcopal de Boston, 1800): 

Ser um verdadeiro ministro para as pessoas implica receber sempre novas alegrias e novas tristezas. Aquele que se dedica aos outros, nunca pode ser totalmente triste; mas, também, não pode ser só alegre. Quanto mais profunda for sua consagração, mais ele terá alegrias nunca antes experimentadas; e, misturadas no mesmo cálice, passará por tristezas que antes não tinha condições de superar. 

Não há maior tristeza que a de perder uma ovelha. 

A ovelha desgarrada só volta ao aprisco através do pastor, no ombro do pastor. (William M. Branham). 

Um pastor é um guia, é aquele que vai atrás de sua ovelha. Ele até sacrifica as demais para socorrer a perdida (Lc. 15.4) e enfrenta todo o tipo de obstáculos e perigos para resgatar a ovelha desviada. (WMB)

A missão do pastor é muito árdua. 

Jesus, como evangelista, expulsava os demônios pelo dedo de Deus (Lc. 11. 20), mas como pastor precisava usar o ombro para transportar a ovelha resgatada. (Lc. 15. 5)

Os ombros são as partes maiores, mais fortes e mais resistentes do corpo humano. É onde o homem consegue carregar, em segurança, a carga mais pesada. 

Em vários sentidos, nós pastores realizamos o trabalho mais pesado, mais difícil, mais dolorido, mais frustrante; todavia, o mais gratificante e alegre do mundo (Hb. 13. 17). Levantamos cada manhã, sabendo que o trabalho nunca será concluído durante a nossa vida, mas estamos sempre dispostos a passar por isto: pregar, orar, jejuar, resgatar os desviados, ungir os enfermos, alegrar-se com os que estão alegres e chorar com os que choram. 

Tudo isso porque dentro de nós bate um grande coração, um coração consagrado, marcado por alegrias "santas" e por sofrimento "santo". Um coração que anseia bater no compasso do próprio coração do Supremo Pastor. 

Coração Ameaçado 

Há algumas áreas do pastorado que desafiam nossa capacidade de manter um coração de pastor, que ameaçam miná-lo constantemente. 

Nosso coração de pastor pode ser facilmente ameaçado por nossa necessidade emocional. Muitos de nós podemos apontar o dedo para os problemas dos outros e, ao mesmo tempo, sermos completamente ignorantes das necessidades, impulsos e tendências ocultos, que impelem nossa própria vida. Alguns de nós somos literalmente movidos pela necessidade. 

Nossos sentimentos são derivados de valor próprio, do sucesso, do fato de ter pessoas que nos elogiam e que dependem de nós. Assim, corremos em todas as direções e nos sacrificamos demasiadamente, trabalhando dia e noite, tudo por causa dos nossos sentimentos de incapacidade, do nosso anseio de sermos amados pelos outros, da nossa necessidade de sermos necessários. 

Para conservar um legítimo coração de pastor, em face dessa tentação, descobri que é útil relembrar-me do que é óbvio: não sou responsável por atender as necessidades de todo mundo. Além disso, Deus não precisa de mim e a igreja também não. Eu sou realmente dispensável, Deus pode substituir-me num piscar de olhos. 


Texto retirado do cap. 04, intitulado Coração, do Livro Dois-Pontos – Caminho no Mar. Ano: 2013. Pág. 53-56

Autor: Pr. Eliézer da Silva Ribeiro.


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